Os brasileiros, ou pelo menos algo que reconheço como familiar, parecem felizes em desenvolver uma espécie de preocupação subalterna com o outro. E isso principalmente quando o outro carrega sangue azul em suas veias, ou quando carrega mais dinheiro em seus bolsos. Parece que traçamos nossos objetivos existenciais no mundo, ou medimos nossos atos sempre observando a opinião do mais forte e poderoso, isto é, o gringo.
O universo sobre o qual posso fazer essa análise é o Rio de Janeiro. Um belo caso, afinal. Uma cidade turística por excelência, mas não por genética. Quero dizer é que o Rio, não necessariamente, "foi feito" para receber de "braços abertos" (e a insistente imagem do cristo redentor nos vem logo à cabeça) o gringo. Construiu-se uma tradição de ser hospitaleiro nessa cidade, o que, de fato, contribui muito em vários sentidos. "O povo que se fecha ao estrangeiro e ao diferente, acaba por se deteriorar por dentro de si, e desmorona-se sobre seus pés...", diria um professor admirável. Entretanto, a questão que gostaria de colocar sob o julgo de vocês é a seguinte: precisava abrir-se tanto assim, e de forma tão subalterna? Precisávamos nos rebaixar tanto?
Antes de mais nada, gostaria de delinear melhor sobre o que quero falar e em que direção aponto quando digo que mantemos uma preocupação subalterna com o outro. O turismo é sempre reinvindicado como uma atividade essencial ao Rio de Janeiro, que o favorece economicamente e que constrói-se uma imagem positiva da cidade no exterior e para os próprios moradores. Uma imagem da qual os cariocas teriam que ter orgulho: a "Cidade Maravilhosa".
Certo, é uma atividade econômica importante para a cidade no sentido absoluta da captação, ou seja, no valor total da economia da cidade, superando os 30 bilhões de reais, segundo o IBGE em 2007. Entretanto deveríamos analisar a quem todo esse dinheiro movimentado favorece e de que forma pode ser revertida ao cidadão. Com certeza a realidade supera o que tento aqui descrever, mas mesmo que o dinheiro envolvido na atividade confirme sua importancia para a cidade, nas mãos de quem acabam repousando? Uma hipótese: setor hoteleiro, aeroviário, de restaurantes e casas noturnas, sem falar nos donos dos estabelecimentos que ficam em pontos turísticos. Não me oponho a ninguém que ganhe dinheiro de forma justa, e que o faça para o seu bem e de seus próximos. Porém, o argumento de que o dinheiro será revertido para a cidade é meio capenga.
Há o argumento de que os impostos advindos dessa movimentação econômica são suficientemente vultosos para serem reinvestidos na cidade. Entretanto, outra suposição que pode nos guiar a reflexão é de que os impostos arrecadados nessa atividade são reinvestidos na mesma área do qual saíram, a turística, fato que somente causam a inflação e fortalecimento de parte da atividade econômica, e acaba por favorecer ínfima parte do tecido urbano carioca.
Defendo aqui que a cidade se desenvolve e se estrutura de tal forma que privilegie alguns pontos nodais da cidade, importantes tanto por serem lugares de passagem e estadia dos "estrangeiros com dinheiro" quanto lugares que precisam ser mantidos e gerenciados para que continuem a ser pontos turísticos. A cidade cresce e se concentra por onde se mostra ao mundo, e a preocupação subalterna do carioca que, consciente ou inconscientemente, reproduz essa máxima de satisfação da espectativa do outro favorece tal construção concentradora de cidade.
Alguns sintomas nos salta à vista por vezes, e nos perguntamos se estamos sendo críticos demais, ou mesmo, se estamos indo contra nossa "pátria" e toda uma economia pulsante favorecedora do desenvolvimento da cidade em que vivemos. Sou partidário dos que defendem a crítica até quando se está "por cima" (principalmente aí), e que considera a expressão "crítico demais" contraditória e fascista. Continuemos nossa análise.
Alguns sintomas são: 1-não viajei o mundo tanto que pudesse ter certeza disso, mas o Rio é uma das poucas cidades que mantém em sua estrutura policial uma delegacia especializada no atendimento ao turista; 2- as áreas consideradas de interesse do estrangeiro gozam de uma estrutura diferenciada no que diz respeito a qualidade de equipamentos e assistência ativa do Estado; 3-fatos problemáticos (como assaltos e furtos na Lapa) que envolvem o cotidiano dos citadinos cariocas tomam proporções relativas a alertar as perigosas consequências à imagem da cidade.
Uma cidade que prioriza a construção de novas rotas turísticas e o exagero de recursos despejados no marketing governamental; ao mesmo que tempo que reserva a meia dúzia de empresários corruptos o gerenciamento e manutenção do transporte público urbano: caro e pateticamente precário; esta cidade só pode ser classificada como subalterna (pelo menos seus cidadãos mais pobres e aquietados debaixo de porrada). O processo pende mais para a subalternidade voluntária ou imposta de cima para baixo?
Caramba! Meu ponto é, que tipo de cidade queremos construir? Uma em que a preocupação maior é manter uma imagem intocada de "paraíso perdido" achado nos trópicos; a cidade da putaria desbragada dos carnavais em que vale a pena aportar com uma sede infame de bundas mulatas e garotos de programas insaciáveis? Temos força para enfrentar esses poderes interessados em construir cidades dentro da cidade; de construirmos, coletivamente, espaços propícios a exercemos nossas (legímitas) disputas políticas? A pergunta que se impõe é: de quem é a cidade e a quem cabe usá-la?
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