segunda-feira, 27 de junho de 2011

Sobre Pãezinhos e Racismo

Se nós acreditarmos na ideia de que somos seres impregnados de tudo por que passamos, o resultado de todas as experiências que nos deparamos ao longo de nossa história, sem podermos isolarmos nenhuma tipo de “fator” do que somos, seja ele social, psicológico, econômico, físico,  etc etc; não podemos assim diminuir pequenas situações cotidianas de nossas vidas a reles “momentos” ou reduzi-los a meras exceções contingentes de um mundo previsível. As situações menos importantes nesse sentido, muitas vezes, podem nos dizer bem mais do que os grandes eventos da humanidade.
Comprar pão na padaria, por exemplo, é digno da nossa atenção (quando possível). A mim esta é uma situação repleta de emoções disrruptivas e representativa de tendências seletivas dentro de um universo de significados e categorias complexas do que se poderia chamar “estrutura social” (às vezes a expressão me dá arrepios, como muitas vezes também a “estado de arte” não cative um sentimento positivo quando ouço, embora sejam em níveis bem distintos).
A escolha do pão na padaria - e essa é uma hipótese quase que confirmada segundo pesquisas que venho desenvolvendo intimamente - pode ser um sinal evidente do racismo, cultivado na sociedade brasileira desde que se resolveu chamar isso aqui daquilo ali, ou seja, desde sempre. A escolha entre um “mais escurinho” e um “mais clarinho”, é um sinal claro de que fazemos escolhas muitas vezes baseadas em preferências sociais.
É certo que pode-se argumentar que a preferência por um outro tipo de pão (ainda mesmo quando só consideremos esse parâmetro de diferenciação) é resultado simplesmente de uma escolha resultante de um gosto gastronômico específico, produzindo pessoas que apreciem mais o gosto do pão mais queimadinho e o de um pão mais rapidamente assado. Entretanto, e ainda por resultados de pesquisas genialmente desenvolvidas pela minha pessoa, comprovo que o gosto entre os dois tipos considerados não se distinguem, e que se alguém provar o tipo de que diz não apreciar o sabor o fizer com os olhos fechados, esta pessoa se envergonhará de saber que não há diferenças entre os nacos de um ou de outro.
Devo dizer que a relação citada não expressa uma escolha diretamente proporcional ao racismo cultivado por quem escolhe. Não quer dizer, pelo menos não necessariamente, que aquele que escolhe um pão “mais queimadinho” o faz por ser ativista do movimento negro, e que o escolhedor diametralmente distinto prefira o “mais braquinho” por ser simpático à exclusão social baseada na raça. Aí os amigos psicólogos podem me ajudar com a interpretação da líbido dos escolhedores a partir da cor do pão que escolhem comer. Por exemplo, não se pode excluir do campo do possivel que uma modesta e discreta senhora de meia idade não escolha seus simples pãezinhos “mais escurinhos” por um estímulo sexual que direciona sua libído para o homem negro, o qual, por sua vez, é tido como a representação maior da virilidade (vide filmes pornôs que trazem como única possibilidade de virilidade o homem negro, relacionando o tamanho do seu pênis com aquela, constituindo o ideal de “animal sexual”).
Para aquele que achar uma bobagem de alguém que nada tem a fazer no seu dia-a-dia, ou que o tempo compreendido entre sua tarefas é a oportunidade adequada a entregar-se a devaneios inúteis, acho que deveria pensar melhor. Caso seja pertinente meu questionamento, seria prudente investigar por que somente esse tipo de variação é encontrado na oferta de pãezinhos nas padarias Brasil afora, sendo possível conformações paníficas as mais variadas possíveis, superando a cruel dicotomia queimadinho/clarinho. Àquele que acha que não existe racismo no Brasil, por favor lei o Ali Kamel, e poderá confirmar (através da inversão das conclusões, obviamente) que rapidamente entenderá o quão embrenhada em nossos espíritos essa bizarrice está.
Algumas hipóteses podem ser tiradas dessas parcas reflexões sobre o tema, o qual carece, obviamente, de sujeitos que pensem longamente sobre o assunto. Todavia, a questão não pode ser freada em um estágio ainda gestacional, e deve garantir-se que se desenvolva e busque respostas adequadas às importantes questões aqui mostradas. Se você acha que nada tem a ver com essa história e que tem um gosto independente de toda a exclusão social e preconceitos que bóiam na gordura fétida que é a nossa consideração sobre o outro, pense bem antes de escolher o seu pãozinho na padaria. Não se assuste se (ou quando) se perceber um racista daqueles!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Dado: o Maranhã tem 0,5% de suas propriedades ocupando quase metade do território do estado. E dizem que os conflitos são causados por chiadeira de vagabundos.

Regularização e controle vs. Criminalização

O editorial d"o Globo" de hoje traz uma discussão importante para nossas vidas cotidianas. Entretanto, como na maioria esmagadora das vezes, situa a questão em parâmetros e objetivos em lugares errados. A legalização ou a descriminalização seriam (uma ou outra) a solução? Até que nesse ponto, o editorial coloca de forma inteligente que ela não existe, e que há de se promover a amenização do "problema" social que se tem hoje, e que não há uma solução final para a coisa.
Primeiramente, temos que para de pensar que a questão das drogas é um "problema" que tem que ser combatido. A questão é a forma que se estrutura hoje o comércio e a circulação dos muitos tipos de entorpecentes disponíveis. Sempre haverá consumo, venda, distribuição, circulação etc etc de qualquer droga que seja. Não sejamos inocentes. Na minha opinião, todos usamos algum tipo de droga. Colocar a(s) droga(s) como bode expiatório de todo e qualquer tipo de violência e "anomia" existente no tecido social é de uma inocência extraordinária de uns; como também de uma inteligência estratégica muito refinada para desviar o foco de outros problemas mais prementes.
Meu ponto é: a partir do momento em que aceitarmos que isso não é um problema em si, que não pode ser combatido das formas existente (e muito das propostas no editorial), aí então poderemos minimizar danos estruturais causados, aí sim, pela droga: disputa sangrenta por territórios para a venda ilegal; potencial enorme de corrupção de inúmeros agentes do poder público; descontrole no "malhamento" da droga por parte dos distribuidores, podendo causar o aumentos dos danos aos usuários, etc etc.
Devo dizer que considero todo e qualquer tipo entorpecentes nefasto ao corpo, e que deve ser administrado com cautela por parte do usuário. Mas é aí que surge outra questão: o usuário deve ter autonomia no que usa e inflinge no seu corpo e mente. Eu, por exemplo, considero que alguns cultos evangélicos transformam o cérebro de uma pessoa de forma irreversível, sendo desaconselhável a pessoas mais frágeis ao argumento alheio. Entretando não defendo o fechamento de nenhuma dessa igrejas, nem a criminalização da prática desses cultos.
O editorial do jornal traz a discussão para o lado errado. O ator Carlos Vereza (que aliás é recorrente em seu discurso dramático de pároco desiludido na "grande mídia" considera que todo o tipo de uso de drogas deve ser banido, e que essa discussão afasta a "verdadeira discussão", como se não pudessemos e não tivessemos envergadura ou potencial para discutir distintos problemas de forma substancial. Nos parece óbvio que "o sistema democrático" brasileiro precisa de melhoramentos, se se quer dizer assim, o que não nos impede de discutir sobre a problemática das drogas.
Parece que o ator tenta promover a escamoteação do problema, considerando incoveniente que usuários de drogas holandeses ofereçam aos turistas uma dose ou outra de maconha. O que me permite pensar que o senhor Vereza acha muito inadequado uma população imensa de mendigos espalhados pelas nossas praças, e que na verdade deveríamos prendê-los caso algum ouse nos abordar para pedir dinheiro para cachaça e/ou cigarro. O problema do uso indevido da droga é uma questão grave sim, socialmente grave, e não acho estéticamente maravilhoso, um culto à arte romântica, os viciados em heroína espalhados pelo chão das ruas de Leidsplein (que não faço a menor ideia de onde seja).
Entendo, assim, que o consumo da droga é uma questão do âmbito existêncial particular das pessoas, e que os aspectos que dizem respeito à discussão e como tarefa do Estado e sociedade é o ordenamento da produção/circulação/ venda da mesma, o que quer dizer na legalização e regulamentação da venda da maconha (dentre outras), estipulando normas de produção, como se deve vender, quanto, e por aí vai.
Rebatendo o argumento do ator, de que a regulamentação estimularia a venda clandestina, só lhe pergunto uma coisa: cigarro e whiskie paraguaio sinalizam o que? Não seria a circulação clandestina de produtos entorpecentes legalizados? Não seria melhor ter o controle, mesmo que falho, sobre as drogas ilícitas, do que primar pela ilegalidade das mesmos a todo custo? Fica a questão.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Subalternos ou subalternizados?

Os brasileiros, ou pelo menos algo que reconheço como familiar, parecem felizes em desenvolver uma espécie de preocupação subalterna com o outro. E isso principalmente quando o outro carrega sangue azul em suas veias, ou quando carrega mais dinheiro em seus bolsos. Parece que traçamos nossos objetivos existenciais no mundo, ou medimos nossos atos sempre observando a opinião do mais forte e poderoso, isto é, o gringo.
 O universo sobre o qual posso fazer essa análise é o Rio de Janeiro. Um belo caso, afinal. Uma cidade turística por excelência, mas não por genética. Quero dizer é que o Rio, não necessariamente, "foi feito" para receber de "braços abertos" (e a insistente imagem do cristo redentor nos vem logo à cabeça) o gringo. Construiu-se uma tradição de ser hospitaleiro nessa cidade, o que, de fato, contribui muito em vários sentidos. "O povo que se fecha ao estrangeiro e ao diferente, acaba por se deteriorar por dentro de si, e desmorona-se sobre seus pés...", diria um professor admirável. Entretanto, a questão que gostaria de colocar sob o julgo de vocês é a seguinte: precisava abrir-se tanto assim, e de forma tão subalterna? Precisávamos nos rebaixar tanto?
Antes de mais nada, gostaria de delinear melhor sobre o que quero falar e em que direção aponto quando digo que mantemos uma preocupação subalterna com o outro. O turismo é sempre reinvindicado como uma atividade essencial ao Rio de Janeiro,  que o favorece economicamente e que constrói-se uma imagem positiva da cidade no exterior e para os próprios moradores. Uma imagem da qual os cariocas teriam que ter orgulho: a "Cidade Maravilhosa".
Certo, é uma atividade econômica importante para a cidade no sentido absoluta da captação, ou seja, no valor total da economia da cidade, superando os 30 bilhões de reais, segundo o IBGE em 2007. Entretanto deveríamos analisar a quem todo esse dinheiro movimentado favorece e de que forma pode ser revertida ao cidadão. Com certeza a realidade supera o que tento aqui descrever, mas mesmo que o dinheiro envolvido na atividade confirme sua importancia para a cidade, nas mãos de quem acabam repousando? Uma hipótese: setor hoteleiro, aeroviário, de restaurantes e casas noturnas, sem falar nos donos dos estabelecimentos que ficam em pontos turísticos. Não me oponho a ninguém que ganhe dinheiro de forma justa, e que o faça para o seu bem e de seus próximos. Porém, o argumento de que o dinheiro será revertido para a cidade é meio capenga.
Há o argumento de que os impostos advindos dessa movimentação econômica são suficientemente vultosos para serem reinvestidos na cidade. Entretanto, outra suposição que pode nos guiar a reflexão é de que os impostos arrecadados nessa atividade são reinvestidos na mesma área do qual saíram, a turística, fato que somente causam a inflação e fortalecimento de parte da atividade econômica, e acaba por favorecer ínfima parte do tecido urbano carioca.
Defendo aqui que a cidade se desenvolve e se estrutura de tal forma que privilegie alguns pontos nodais da cidade, importantes tanto por serem lugares de passagem e estadia dos "estrangeiros com dinheiro" quanto lugares que precisam ser mantidos e gerenciados para que continuem a ser pontos turísticos. A cidade cresce e se concentra por onde se mostra ao mundo, e a preocupação subalterna do carioca que, consciente ou inconscientemente, reproduz essa máxima de satisfação da espectativa do outro favorece tal construção concentradora de cidade.
Alguns sintomas nos salta à vista por vezes, e nos perguntamos se estamos sendo críticos demais, ou mesmo, se estamos indo contra nossa "pátria" e toda uma economia pulsante favorecedora do desenvolvimento da cidade em que vivemos. Sou partidário dos que defendem a crítica até quando se está "por cima" (principalmente aí), e que considera a expressão "crítico demais" contraditória e fascista. Continuemos nossa análise.
Alguns sintomas são: 1-não viajei o mundo tanto que pudesse ter certeza disso, mas o Rio é uma das poucas cidades que mantém em sua estrutura policial uma delegacia especializada no atendimento ao turista; 2- as áreas consideradas de interesse do estrangeiro gozam de uma estrutura diferenciada no que diz respeito a qualidade de equipamentos e assistência ativa do Estado; 3-fatos problemáticos (como assaltos e furtos na Lapa) que envolvem o cotidiano dos citadinos cariocas tomam proporções relativas a alertar as perigosas consequências à imagem da cidade.
Uma cidade que prioriza a construção de novas rotas turísticas e o exagero de recursos despejados no marketing governamental; ao mesmo que tempo que reserva a meia dúzia de empresários corruptos o gerenciamento e manutenção do transporte público urbano: caro e pateticamente precário; esta cidade só pode ser classificada como subalterna (pelo menos seus cidadãos mais pobres e aquietados debaixo de porrada). O processo pende mais para a subalternidade voluntária ou imposta de cima para baixo?
Caramba! Meu ponto é, que tipo de cidade queremos construir? Uma em que a preocupação maior é manter uma imagem intocada de "paraíso perdido" achado nos trópicos; a cidade da putaria desbragada dos carnavais em que vale a pena aportar com uma sede infame de bundas mulatas e garotos de programas insaciáveis? Temos força para enfrentar esses poderes interessados em construir cidades dentro da cidade; de construirmos, coletivamente, espaços propícios a exercemos nossas (legímitas) disputas políticas? A pergunta que se impõe é: de quem é a cidade e a quem cabe usá-la?