Mesa de Bar
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
a dor que vem
a dor ressurge das formas mais inesperadas, e desperta o que relutamos em deixar adormecido, em pesadelos revoltos. o descontrole que ela traz nos joga ao chão como um terremoto, e invadem os mais remotos lugares da alma. ela faz lembrar sorrisos e lágrimas daqueles que gostaríamos de ter ao lado, e que o destino inexplicavelmente nos tira a oportunidade de fruir. a doçura da companhia de quem amávamos, e continuamos amando, fica como um filme que vimos só uma vez há muito tempo, na infância, mas que deixaram marcas profundas, imagens eternas. o coração é torcido como se fosse uma roupa que sempre precisa ser lavada, fazendo escorrer uma lágrima reprimida com tanta dificuldade, e que exige a força e a vontade de seguir o caminho sem o amigo até então inseparável: o destino é insensível. sentir a ausência, a presença extirpada, é o que se tem para levar, e que as lágrimas sigam o caminho que precisam, e que continuem a limpar, a sempre relimpar, as ásperas areias de uma tragédia inexplicada. chore, sinta, e siga, pois um dia estará novamente com ela.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Mini-resenha: CALVINO, Ítalo. "La speculazione edilizia"
No recém-publicado pela Companhia das Letras "A Especulação Imobiliária", Ítalo Calvino nos traz uma ótima descrição do processo que, se fôssemos um pouco mais distraídos diante o que temos feito no mundo, passaria desapercebido o quão antigo e potente ele é. Quinto volta para casa após um longo período de "formação intelectual" em Turim. A nova realidade de sua cidade natal lhe dá novas perspectivas em uma fase quando a maturidade só faz revelar a inocência de suas antigas pretensões de vida. Se vê obrigado a vender parte do jardim de sua casa para um empresário, Caisotti, contra qual todos protestam, veementemente e reiteradas vezes. Quinto vê no negócio com Caisotti uma oportunidade de conseguir tirar "um qualquer" da situação. Não tarda então a propor um negócio maior e mais ousado, oferecendo mais uma parte do terreno em troca de apartamentos, com condições contratuais bem acertadas e conservadoras. Uma oportunidade de negócios, sem dúvida, mas sobretudo um momento oportuno de colocar em dúvida suas convicções, "brincando" de empresário à medida que ocupa seu tempo cuidando do andamento das obras. As dificuldades e contratempos expõe sua fraqueza na condução do negócio, ficando várias vezes nas mãos do bronco, mais muito habilidoso empresário da construção civil.
O tom irônico que perpassa todo o texto de Calvino põe em risco as posições dos personagens: o intelectual comunista mal sucedido na cidade-grande que volta à sua pequena cidade e encontra a família em frangalhos, remexendo feridas mal cicatrizadas de um passado que ressurge, colocando em cheque a todo tempo suas convicções ideológicas diante dessa situação limítrofe; o empreendedor provinciano que chega à cidade, sedento por prosperar no ramo da construção civil, visto como bronco e indigno de confiança, representando o progresso que chega, apesar de ser mais um no meio deste turbilhão; o irmão mais novo que começa a afirmar-se em sua carreira, não levando muito a sério a situação de sua família, carregando uma insolência por todas as situações em que é chamado a defender o pleito familiar; a mãe que se vê sem os filhos e o marido (morto), às voltas com problemas financeiros, apegando-se no que parece ser sua última gota de vida: seu jardim e suas plantas. Sem contar nos profissionais do ramo nativos da cidade que representam a reação aos estrangeiros que insistem em mudar o espaço e o modo de se viver no tradicional balneário italiano.
A ironia quase abre espaço ao cômico, que se manifesta ante a inevitável mudança do lugar, o ímpeto sem freios do progresso que reorganiza toda a vida ali, cidadela encravada à beira do mar, ao sul da Itália. O pós-guerra italiano é a encarnação da própria tragédia moderna, que assemelha-se à tempestade que Walter Benjamin identifica no quadro de Klee, quando um anjo é impelido irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso (http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-55/despedida/passado-presente-futuro).
O livro pode ser criticado por não ser maior e pela falta de volume quando se considera a obra como um todo. Não seria de todo ruim arriscar a inserção de mais personagens, mais cenários, mais situações cômicas nas quais uma rede maior de papéis e convicções pudesse destruir-se mutuamente no eterno movimento do Progresso. Entretanto, não há que se jogar a água fora pela janela com a criança, pois o texto é construído de forma muito inteligente, com o sarcasmo sempre pronto a desconstruir qualquer verdade que os personagens possam carregar consigo - os novos tempos não deixam espaço para a inocência - ou mesmo escancarando a futilidade de um novo tempo que chega para se afirmar de uma vez por todas, com toda a violência que é capaz de trazer consigo.
O tom irônico que perpassa todo o texto de Calvino põe em risco as posições dos personagens: o intelectual comunista mal sucedido na cidade-grande que volta à sua pequena cidade e encontra a família em frangalhos, remexendo feridas mal cicatrizadas de um passado que ressurge, colocando em cheque a todo tempo suas convicções ideológicas diante dessa situação limítrofe; o empreendedor provinciano que chega à cidade, sedento por prosperar no ramo da construção civil, visto como bronco e indigno de confiança, representando o progresso que chega, apesar de ser mais um no meio deste turbilhão; o irmão mais novo que começa a afirmar-se em sua carreira, não levando muito a sério a situação de sua família, carregando uma insolência por todas as situações em que é chamado a defender o pleito familiar; a mãe que se vê sem os filhos e o marido (morto), às voltas com problemas financeiros, apegando-se no que parece ser sua última gota de vida: seu jardim e suas plantas. Sem contar nos profissionais do ramo nativos da cidade que representam a reação aos estrangeiros que insistem em mudar o espaço e o modo de se viver no tradicional balneário italiano.
A ironia quase abre espaço ao cômico, que se manifesta ante a inevitável mudança do lugar, o ímpeto sem freios do progresso que reorganiza toda a vida ali, cidadela encravada à beira do mar, ao sul da Itália. O pós-guerra italiano é a encarnação da própria tragédia moderna, que assemelha-se à tempestade que Walter Benjamin identifica no quadro de Klee, quando um anjo é impelido irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso (http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-55/despedida/passado-presente-futuro).
O livro pode ser criticado por não ser maior e pela falta de volume quando se considera a obra como um todo. Não seria de todo ruim arriscar a inserção de mais personagens, mais cenários, mais situações cômicas nas quais uma rede maior de papéis e convicções pudesse destruir-se mutuamente no eterno movimento do Progresso. Entretanto, não há que se jogar a água fora pela janela com a criança, pois o texto é construído de forma muito inteligente, com o sarcasmo sempre pronto a desconstruir qualquer verdade que os personagens possam carregar consigo - os novos tempos não deixam espaço para a inocência - ou mesmo escancarando a futilidade de um novo tempo que chega para se afirmar de uma vez por todas, com toda a violência que é capaz de trazer consigo.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Seguindo uma tendência da minha atuação na internet, troquei mais uma vez o jeito do blog. Uma parte de mim insiste em ficar envergonhado pela desimportância de tudo isso. Não me importo - diz a outra parte. Quem quiser se importar, importe-se, quem se desimportar, faça o que bem entender. A ideia, "o conceito" do blog, é inspirado nessa música aí: pra quem não conhece http://www.youtube.com/watch?v=BzeTU7KEeXY
terça-feira, 20 de setembro de 2011
ATENÇÃO LEITORES!!!
"SEGUNDA-FEIRA, 19 DE SETEMBRO DE 2011
Iniciativa dos alunos dos cursos de graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, a 3º edição da revista Estrelas Vagabundas será lançada em outubro. Os trabalhos selecionados estão em fase de diagramação. Impressa em formato livro, a revista conta com mais de 20 autores, que contribuíram com imagens, contos, crônicas e poemas. O lançamento contará com sarau e bebericos para comemorar os cerca de duzentos exemplares de 70 páginas que serão distribuídos gratuitamente."
Estrelas Vagabundas | Lançamento em Outubro/2011
Iniciativa dos alunos dos cursos de graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, a 3º edição da revista Estrelas Vagabundas será lançada em outubro. Os trabalhos selecionados estão em fase de diagramação. Impressa em formato livro, a revista conta com mais de 20 autores, que contribuíram com imagens, contos, crônicas e poemas. O lançamento contará com sarau e bebericos para comemorar os cerca de duzentos exemplares de 70 páginas que serão distribuídos gratuitamente."
sábado, 17 de setembro de 2011
Na indigente procura do meu corpo
encontro o seu
trêmulas inconformidades
Sexo é poesia
e não há poesia sem quadril
Pelo arfar da pele nua
as ondas de pelo
lambendo a carne que é sua
sua
e só há o gozo dos membros
balbuciando gestos e suspiros
entre a quentura que me consome
joga-me num embalaiado
olhos fechados de infinitos
por entre barrigas e bocetas
o ninho que escora minha raiva e sufoca meu contentamento
Estamos engalfinhados na libertação de nós mesmos
encontro o seu
trêmulas inconformidades
Sexo é poesia
e não há poesia sem quadril
Pelo arfar da pele nua
as ondas de pelo
lambendo a carne que é sua
sua
e só há o gozo dos membros
balbuciando gestos e suspiros
entre a quentura que me consome
joga-me num embalaiado
olhos fechados de infinitos
por entre barrigas e bocetas
o ninho que escora minha raiva e sufoca meu contentamento
Estamos engalfinhados na libertação de nós mesmos
terça-feira, 19 de julho de 2011
E se quando é uma necessidade de se viver, viver em dúvida. E depois que se aprende como viver nessa condição, entendendo que a melhor forma de andar é não cair, é insistir em se equilibrar na corda-bamba por sobre o abismo. E se assim nos constituímos, e se não sabemos porquê ficamos em pé, por que não mergulhar quando se é tentado? A vertigem!
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