terça-feira, 4 de outubro de 2011

Mini-resenha: CALVINO, Ítalo. "La speculazione edilizia"

       No recém-publicado pela Companhia das Letras "A Especulação Imobiliária", Ítalo Calvino nos traz uma ótima descrição do processo que, se fôssemos um pouco mais distraídos diante o que temos feito no mundo, passaria desapercebido o quão antigo e potente ele é. Quinto volta para casa após um longo período de "formação intelectual" em Turim. A nova realidade de sua cidade natal lhe dá novas perspectivas em uma fase quando a maturidade só faz revelar a inocência de suas antigas pretensões de vida. Se vê obrigado a vender parte do jardim de sua casa para um empresário, Caisotti, contra qual todos protestam, veementemente e reiteradas vezes. Quinto vê no negócio com Caisotti uma oportunidade de conseguir tirar "um qualquer" da situação. Não tarda então a propor um negócio maior e mais ousado, oferecendo mais uma parte do terreno em troca de apartamentos, com condições contratuais bem acertadas e conservadoras. Uma oportunidade de negócios, sem dúvida, mas sobretudo um momento oportuno de colocar em dúvida suas convicções, "brincando" de empresário à medida que ocupa seu tempo cuidando do andamento das obras. As dificuldades e contratempos expõe sua fraqueza na condução do negócio, ficando várias vezes nas mãos do bronco, mais muito habilidoso empresário da construção civil.
       O tom irônico que perpassa todo o texto de Calvino põe em risco as posições dos personagens: o intelectual comunista mal sucedido na cidade-grande que volta à sua pequena cidade e encontra a família em frangalhos, remexendo feridas mal cicatrizadas de um passado que ressurge, colocando em cheque a todo tempo suas convicções ideológicas diante dessa situação limítrofe; o empreendedor provinciano que chega à cidade, sedento por prosperar no ramo da construção civil, visto como bronco e indigno de confiança, representando o progresso que chega, apesar de ser mais um no meio deste turbilhão; o irmão mais novo que começa a afirmar-se em sua carreira, não levando muito a sério a situação de sua família, carregando uma insolência por todas as situações em que é chamado a defender o pleito familiar; a mãe que se vê sem os filhos e o marido (morto), às voltas com problemas financeiros, apegando-se no que parece ser sua última gota de vida: seu jardim e suas plantas. Sem contar nos profissionais do ramo nativos da cidade que representam a reação aos estrangeiros que insistem em mudar o espaço e o modo de se viver no tradicional balneário italiano.
       A ironia quase abre espaço ao cômico, que se manifesta ante a inevitável mudança do lugar, o ímpeto sem freios do progresso que reorganiza toda a vida ali, cidadela encravada à beira do mar, ao sul da Itália. O pós-guerra italiano é a encarnação da própria tragédia moderna, que assemelha-se à tempestade que Walter Benjamin identifica no quadro de Klee, quando um anjo é impelido irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso (http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-55/despedida/passado-presente-futuro).
      O livro pode ser criticado por não ser maior e pela falta de volume quando se considera a obra como um todo. Não seria de todo ruim arriscar a inserção de mais personagens, mais cenários, mais situações cômicas nas quais uma rede maior de papéis e convicções pudesse destruir-se mutuamente no eterno movimento do Progresso. Entretanto, não há que se jogar a água fora pela janela com a criança, pois o texto é construído de forma muito inteligente, com o sarcasmo sempre pronto a desconstruir qualquer verdade que os personagens possam carregar consigo - os novos tempos não deixam espaço para a inocência -  ou mesmo escancarando a futilidade de um novo tempo que chega para se afirmar de uma vez por todas, com toda a violência que é capaz de trazer consigo.

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