terça-feira, 30 de novembro de 2010

Rio, 23 de Novembro de 2010

Hoje foi quente como há muito não era. Começava-se a derreter por dentro e rapidinho já começava-se a escorrer por fora. Era de se desmantelar todo. E o povo todo oriçado nas ruas. O movimento abestado e corrido não era visível, só se sentia toda agitação nas esquinas e nos temperamentos. Não sei se a feriado em Niterói, a frescura da noite, ou se o calor infernal mesmo por si só era o responsável por isso. O que era fato era a pulsação diferente do ar, das palavras e das coisas. Fiquei assustado logo no começo do dia pelas conspirações do jornal, que me jogavam de cara no asfalto, fazendo rir a realidade com minha inocência e espírito pequeno-burguês safado maconheiro. Foi isso que senti. Depois de suar uns dez litros, sentidos pelo peso da camisa e a tonteira da desidratação, entrei no rítmo da loucura urbana que foi hoje o Rio de Janeiro. As coisas me pareciam hoje estarem conspirando na sala do lado, sentido eu somente as paredes saculejarem aos sussurros e vozes irreconhecíveis do outro lado. Ao mesmo tempo tudo era-me tão claro e concebível como um sol de meio dia que nos força a corpo para o chão. Fiquei estarrecido, esturricado e muito assustado hoje.

A decisão inabalável

A vontade era mesmo de ir me esgueirando pelos móveis do apartamento e encontrar espaço pra minha bunda e costas em qualquer canto de parede, desde que fosse escura. Era incontrolavel a tremedeira da boca que precedia o choro incontido, e o nó na garganta complicava cada vez mais meu auto-controle. Tinha entregado os pontos depois dois dias depois d'ele ter ido embora e a sensação de impotência forçava-me contra o chão frio. Chorei mais de duas horas sem parar, e hoje sei que o descontrole não correspondia à incompreensão do que tinha causado sua partida, ao contrário, saber os motivos quase me empurrava ao descalabro de matar-me de forma romântica e frágil. Ridículo, sei. Entendi sempre que a apatia é o sentimento (e a prática) mais lamentável e horrorosa que pode-se experimentar, e ficar acocorado como assim estava jogava-me num turbilhão surdo e com movimento estático difícil de se entender. Mover-me um mílimetro requeria um esforço sobre humano. Todo esse atabalhoamento, muito devagarzinho, bem carinhosamente, quse como um delicado sopro feminino, foi se transformando silêncio verdadeiro e pacífico, num entendimento profundo da cor bege toscamenente pintada no teto e paredes do recinto. Logo depois, um incômodo real, um esquentamento na barriga, um germe que começava a enrubecer meu corpo e agitar todo meu intestino. Levantei-me, em direção à cozinha balancei meu corpo de alguém que não eu, aprumei minha alma, abri a geladeira, testemunhei a falta em sua máxima expressão, deixei minha fome e meu desejo de comer criar possibilidades com o vazio. Peguei um miojo de galinha caipira, um iogurte natural fora da validade, um pote de margarina no final, farinha, alho, cebola, manjericão no armário, daí tirei uma receita que não saberia explicar seus passos aqui novamente. Não tinha a mínima ideia do que estava fazendo, não sentia nada, só o som atravessado de uma canção bonitinha que assoviava em passos lentos e incertos.