terça-feira, 30 de novembro de 2010

A decisão inabalável

A vontade era mesmo de ir me esgueirando pelos móveis do apartamento e encontrar espaço pra minha bunda e costas em qualquer canto de parede, desde que fosse escura. Era incontrolavel a tremedeira da boca que precedia o choro incontido, e o nó na garganta complicava cada vez mais meu auto-controle. Tinha entregado os pontos depois dois dias depois d'ele ter ido embora e a sensação de impotência forçava-me contra o chão frio. Chorei mais de duas horas sem parar, e hoje sei que o descontrole não correspondia à incompreensão do que tinha causado sua partida, ao contrário, saber os motivos quase me empurrava ao descalabro de matar-me de forma romântica e frágil. Ridículo, sei. Entendi sempre que a apatia é o sentimento (e a prática) mais lamentável e horrorosa que pode-se experimentar, e ficar acocorado como assim estava jogava-me num turbilhão surdo e com movimento estático difícil de se entender. Mover-me um mílimetro requeria um esforço sobre humano. Todo esse atabalhoamento, muito devagarzinho, bem carinhosamente, quse como um delicado sopro feminino, foi se transformando silêncio verdadeiro e pacífico, num entendimento profundo da cor bege toscamenente pintada no teto e paredes do recinto. Logo depois, um incômodo real, um esquentamento na barriga, um germe que começava a enrubecer meu corpo e agitar todo meu intestino. Levantei-me, em direção à cozinha balancei meu corpo de alguém que não eu, aprumei minha alma, abri a geladeira, testemunhei a falta em sua máxima expressão, deixei minha fome e meu desejo de comer criar possibilidades com o vazio. Peguei um miojo de galinha caipira, um iogurte natural fora da validade, um pote de margarina no final, farinha, alho, cebola, manjericão no armário, daí tirei uma receita que não saberia explicar seus passos aqui novamente. Não tinha a mínima ideia do que estava fazendo, não sentia nada, só o som atravessado de uma canção bonitinha que assoviava em passos lentos e incertos.

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