Hoje foi quente como há muito não era. Começava-se a derreter por dentro e rapidinho já começava-se a escorrer por fora. Era de se desmantelar todo. E o povo todo oriçado nas ruas. O movimento abestado e corrido não era visível, só se sentia toda agitação nas esquinas e nos temperamentos. Não sei se a feriado em Niterói, a frescura da noite, ou se o calor infernal mesmo por si só era o responsável por isso. O que era fato era a pulsação diferente do ar, das palavras e das coisas. Fiquei assustado logo no começo do dia pelas conspirações do jornal, que me jogavam de cara no asfalto, fazendo rir a realidade com minha inocência e espírito pequeno-burguês safado maconheiro. Foi isso que senti. Depois de suar uns dez litros, sentidos pelo peso da camisa e a tonteira da desidratação, entrei no rítmo da loucura urbana que foi hoje o Rio de Janeiro. As coisas me pareciam hoje estarem conspirando na sala do lado, sentido eu somente as paredes saculejarem aos sussurros e vozes irreconhecíveis do outro lado. Ao mesmo tempo tudo era-me tão claro e concebível como um sol de meio dia que nos força a corpo para o chão. Fiquei estarrecido, esturricado e muito assustado hoje.
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