O editorial d"o Globo" de hoje traz uma discussão importante para nossas vidas cotidianas. Entretanto, como na maioria esmagadora das vezes, situa a questão em parâmetros e objetivos em lugares errados. A legalização ou a descriminalização seriam (uma ou outra) a solução? Até que nesse ponto, o editorial coloca de forma inteligente que ela não existe, e que há de se promover a amenização do "problema" social que se tem hoje, e que não há uma solução final para a coisa.
Primeiramente, temos que para de pensar que a questão das drogas é um "problema" que tem que ser combatido. A questão é a forma que se estrutura hoje o comércio e a circulação dos muitos tipos de entorpecentes disponíveis. Sempre haverá consumo, venda, distribuição, circulação etc etc de qualquer droga que seja. Não sejamos inocentes. Na minha opinião, todos usamos algum tipo de droga. Colocar a(s) droga(s) como bode expiatório de todo e qualquer tipo de violência e "anomia" existente no tecido social é de uma inocência extraordinária de uns; como também de uma inteligência estratégica muito refinada para desviar o foco de outros problemas mais prementes.
Meu ponto é: a partir do momento em que aceitarmos que isso não é um problema em si, que não pode ser combatido das formas existente (e muito das propostas no editorial), aí então poderemos minimizar danos estruturais causados, aí sim, pela droga: disputa sangrenta por territórios para a venda ilegal; potencial enorme de corrupção de inúmeros agentes do poder público; descontrole no "malhamento" da droga por parte dos distribuidores, podendo causar o aumentos dos danos aos usuários, etc etc.
Devo dizer que considero todo e qualquer tipo entorpecentes nefasto ao corpo, e que deve ser administrado com cautela por parte do usuário. Mas é aí que surge outra questão: o usuário deve ter autonomia no que usa e inflinge no seu corpo e mente. Eu, por exemplo, considero que alguns cultos evangélicos transformam o cérebro de uma pessoa de forma irreversível, sendo desaconselhável a pessoas mais frágeis ao argumento alheio. Entretando não defendo o fechamento de nenhuma dessa igrejas, nem a criminalização da prática desses cultos.
O editorial do jornal traz a discussão para o lado errado. O ator Carlos Vereza (que aliás é recorrente em seu discurso dramático de pároco desiludido na "grande mídia" considera que todo o tipo de uso de drogas deve ser banido, e que essa discussão afasta a "verdadeira discussão", como se não pudessemos e não tivessemos envergadura ou potencial para discutir distintos problemas de forma substancial. Nos parece óbvio que "o sistema democrático" brasileiro precisa de melhoramentos, se se quer dizer assim, o que não nos impede de discutir sobre a problemática das drogas.
Parece que o ator tenta promover a escamoteação do problema, considerando incoveniente que usuários de drogas holandeses ofereçam aos turistas uma dose ou outra de maconha. O que me permite pensar que o senhor Vereza acha muito inadequado uma população imensa de mendigos espalhados pelas nossas praças, e que na verdade deveríamos prendê-los caso algum ouse nos abordar para pedir dinheiro para cachaça e/ou cigarro. O problema do uso indevido da droga é uma questão grave sim, socialmente grave, e não acho estéticamente maravilhoso, um culto à arte romântica, os viciados em heroína espalhados pelo chão das ruas de Leidsplein (que não faço a menor ideia de onde seja).
Entendo, assim, que o consumo da droga é uma questão do âmbito existêncial particular das pessoas, e que os aspectos que dizem respeito à discussão e como tarefa do Estado e sociedade é o ordenamento da produção/circulação/ venda da mesma, o que quer dizer na legalização e regulamentação da venda da maconha (dentre outras), estipulando normas de produção, como se deve vender, quanto, e por aí vai.
Rebatendo o argumento do ator, de que a regulamentação estimularia a venda clandestina, só lhe pergunto uma coisa: cigarro e whiskie paraguaio sinalizam o que? Não seria a circulação clandestina de produtos entorpecentes legalizados? Não seria melhor ter o controle, mesmo que falho, sobre as drogas ilícitas, do que primar pela ilegalidade das mesmos a todo custo? Fica a questão.
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